sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Muitas faces


Acredite, esse poliedro tem 60 peças. A graça está na quantidade de cores que com o contraste, forma uma estrela. Esse contraste, se resolve usando papel dupla face, algo difícil de se encontrar no Brasil. Geralmente a gramatura que encontramos é alta, e o papel tem a mesma cor dos dois lados.  É uma pena a indústria brasileira não perceber isso!
O modelo é da Tomoko Fuse (Japão) com a minha confecção.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Entrevista com Mari Kanegae


Se hoje uma das surpresas tecnológicas são impressoras que reproduzam objetos tridimensionais, o origami pode ser chamado de tradição que se renova. A partir de um plano, bidimensional, dobrando de forma engenhosa, pode-se criar qualquer forma, com volume, assim é o origami. Ori significa dobrar; Kami é papel, na junção dos ideogramas que representam essas palavras a pronúncia torna-se origami. Mari Kanegae, escritora, artista plástica formada pela USP-São Paulo, coordenadora do GEO-Grupo de Estudos de Origami e apaixonada divulgadora de uma das artes mais conhecidas do Japão, participa dessa emocionante aventura de descobrir novas possibilidades e poéticas com a dobra do papel. Mari Kanegae, constantemente solicitada para cursos, oficinas e palestras; viajou para o Japão afim de aprofundar seus estudos e mantem um constante intercâmbio com os mestres nipônicos; o que sob nossa visão, sua modéstia e conhecimento, uma mestra muito próxima de nós.

Luciana A. Miyashiro: Como você foi iniciada no origami? Aprendeu com familiares, ainda criança; ou foi pesquisar já adulta? Conte toda a história...
 MARI KANEGAE: O meu primeiro contato com o origami foi quando fui conhecer meus avós no Japão. Tinha 3 anos de idade. Quando cheguei lá, só falava em português e eles não entendiam o que eu falava e vice-versa. Aí a minha avó encontrou uma maneira de se comunicar comigo. Foi através do origami. Ela fez uma porção de origami para mim. Depois já no Brasil, fiz um pouco em escola japonesa e a partir de livros que meus pais compravam. Só fui retomar o origami no meu último ano de faculdade na ECA-USP. Como o meu curso era de licenciatura em educação artística com habilitação em artes plásticas, fiz estágios em vários lugares e na maioria em locais onde o poder aquisitivo das pessoas era muito baixo. Num destes lugares, em Santo Amaro, a prefeitura fornecia material como tinta, pincéis, papéis, argila,etc..Mas quando as crianças e adolescentes voltavam para casa, eles não tinham estes materiais. Fiquei pensando em alguma coisa que eles pudessem fazer e que não tivesse custo para eles. Foi aí que lembrei que quando era criança eu fazia origami com papéis de embrulho, revistas e jornais. Então pedi para as crianças trazerem de casa qualquer tipo de papel. Elas aprenderam a cortar os papéis e comecei a ensinar origami. Percebi que elas ficavam super motivadas e começaram a juntar as técnicas: por exemplo, faziam um boneco de argila e depois faziam um chapéu de origami para colocar no boneco. Utilizavam os origamis para trabalhos de colagem e até para contar histórias. Voltavam para casa felizes e  no dia seguinte as mães vinham pedir para eu ensinar alguma coisa porque elas também queriam aprender. E foi assim que conheci além das crianças, os irmãos, as mães. Percebi o quanto o origami era importante não só como atividade, mas também como um elo de ligação entre pessoas. Aprendi que o origami era algo muito sério e resolvi pesquisar e estudar mais profundamente. Depois de formada, fui trabalhar em escola de educação infantil e procurei sempre desenvolver atividades de origami junto com outras técnicas artísticas. Os resultados foram surpreendentes.

Luciana A. Miyashiro: O origami embora seja utilizado não só na Educação...
MARI KANEGAE: O origami foi utilizado em diversas áreas, para demonstrar conceitos matemáticos, noções de cores, formas e tamanhos, além de exercitar a coordenação motora fina, a atenção, a concentração e a criatividade.

Luciana A. Miyashiro: Você fez estudos de origami no Japão?
MARI KANEGAE: Depois destes resultados, resolvi ir ao Japão para me aprimorar em 1984. Tive o grande privilégio de estudar com o mestre Toyoaki Kawai que me ensinou que antes de mais nada, um origamista tem que ser um bom observador. Olhar tudo que está à sua volta, principalmente a natureza. E a partir daí, interpretá-la através do papel. Conheci também o mestre Akira Yoshizawa cujos trabalhos são verdadeiras obras de arte. Com ele aprendi a respeitar o papel. A minha história não tem fim. Continuo aprendendo, ensinando e aprendendo.

Jorge Miyashiro: Fale sobre a habilidade do origamista em imitar a natureza. Pode-se criar tudo, representar toda a existência dobrando papel?
MARI KANEGAE: A criatividade do ser humano é infinita. Tudo é possível para estes grandes mestres do origami.

Jorge Miyashiro: O origami, especificamente o tsuru é uma forma intrigante; simples ao mesmo tempo complexa. Todo japonês, qualquer pessoa interessada em cultura nipônica conhece o tsuru, sabe o que ele representa. Uma criança aprende a dobrar o tsuru, uma habilidade que muitos adultos não possuem. Voce acredita que essa seja uma característica do origami? Uma arte de opostos? Fácil para alguns, espetacular para outros?
 MARI KANEGAE: O tsuru realmente é uma das figuras clássicas do origami, não só do Japão, mas conhecida em todo o mundo. Mesmo hoje, há criações novas que partem desta figura milenar. O origami é igual a outras artes. Tem gente que tem facilidade para dobrar, assim como tem pessoas que tem dom para a música. Seja qual for a dificuldade, para dobrar ou tocar um instrumento, seja ela criança ou adulto, com força de vontade, paciência e muito treinamento, ambas são capazes de superar estas barreiras.

Luciana A. Miyashiro: Por que o origami é visto por muitos como uma atividade para crianças, sendo que existem tantos adultos apaixonados praticantes; isso só acontece no Brasil?
 MARI KANEGAE: Não ocorre só no Brasil. Acontece mesmo no Japão e em outros países. Acredito que aconteça por falta de informações. Por isso é que nos cursos mais adiantados, procuro sempre citar os nomes dos artistas que criaram as obras. Se na música temos autoria de... no origami também temos que dar os créditos. É uma forma de respeito ao artista e de dar mais seriedade ao origami.  

Jorge Miyashiro: É preciso ser especialista para reconhecer o autor deste ou aquele origami? Tem que estar informado sobre o que ha de novo. Existe algum congresso, publicações que tornem documento, registro para esses artistas criadores?
MARI KANEGAE: Tem trabalhos que aprendi quando criança e mesmo com alguns, comento com os alunos que desconheço a autoria. Aí pesquiso nos meus livros, revistas das associações (japonesa, inglesa, americana, alemã, italiana) para descobrir a autoria. Tem alguns que não consegui descobrir e quando ensino estas figuras digo que desconheço o autor, se algum dia souber, peço que me comunique. Existem encontros anuais e convenções em praticamente todos os países. Os mais conhecidos, são da BOS (British Origami Society), da Origami USA, da NOA (Nippon Origami Association), Origami Tanteidan, além dos encontros na Itália e Espanha. Geralmente nestas convenções, há exposições de trabalhos novos dos artistas e publicações. A publicação de um livro de um autor e sua obra, já é um registro. Como não sou usuária regular da internet, não possuo informações se há algo neste sentido neste tipo de veículo.

Luciana A. Miyashiro: Ainda sobre autoria, você não acha que essas revistas vendidas em banca de jornais em que não citam os nomes dos autores dos modelos, não deveriam pedir autorização ao autor?
MARI KANEGAE: Com certeza sim. Normalmente se costuma pedir autorização para a publicação de um trabalho. Quando teve um encontro no Japão cujo tema era sobre direitos autorais, acredito que em 2009, um dos países citados onde havia este tipo de problema foi o Brasil. Neste encontro participaram artistas de vários países cujos trabalhos ou livros foram pirateados ou publicados sem autorização.

Jorge Miyashiro: O origami é uma arte essencialmente japonesa, não é? Transformar uma folha de papel, um plano bidimensional, em um objeto tridimensional. Na China, berço artístico do Japão, não tem nada semelhante, tem?
MARI KANEGAE: Hoje é considerada universal. É praticada no mundo todo, em todos os países. É como o futebol, karate, judo. Não dá para dizer que é essencialmente japonesa, nos dias de hoje. Creio que no Japão é mais popular do que na China.

Luciana A.Miyashiro: Você publicou os livros: Origami, Arte e Técnica da Dobradura de Papel (Aliança Cultural Brasil-Japão) junto com Paulo Imamura e A Arte dos Mestres de Origami (Aliança Cultural Brasil- Japão), duas obras definitivas, que praticamente esgotam o assunto para brasileiros que desejam mergulhar com seriedade no assunto.
MARI KANEGAE:Foram os próprios alunos que solicitaram. Além destes livros que você citou, já existem outras publicações em português. Cabe à pessoa que vai escolher o livro, selecionar o conteúdo que melhor atenda às suas necessidades.

Luciana A.Miyashiro: Para cada modelo de origami existe um tipo de papel mais adequado, como se escolhe o melhor papel para dobrar? O melhor papel é o papel japonês?
 MARI KANEGAE: Para determinadas caixas por exemplo, é melhor usar papel mais firme de gramatura maior. Para dobrar uma flor delicada, o papel mais maleável dá um resultado melhor. No curso nós usamos só o papel espelho e aí faço os alunos perceberem que para a  caixa fica muito mole e para a flor de lotus por exemplo  fica difícil de dobrar. O importante é experimentar todo tipo de papel e ver o resultado, mesmo que não sejam específicos para origami. Durante o processo a gente percebe se o papel é adequado ou não. Não existe uma receita. Tem que dobrar mesmo para sentir.

Jorge Miyashiro: No Japão o papel tem significados determinantes. Envelopes para cada ocasião, para depositar a contribuição nos funerais, tem o Mizu-Hique para enfeites de presentes nos casamentos tradicionais. O origami participa de algum desses rituais religiosos, ou formais?
MARI KANEGAE: Sim. um dos mais antigos origamis é o que representa um casal de borboletas (macho e fêmea) usadas nas garrafas de sakê utilizadas na cerimônia de casamento. Algumas figuras eram dobradas para serem colocadas nos altares religiosos. Existem envelopes também  que são dobrados e não colados.

Jorge Miyashiro: Você não lida apenas com origami. Tem o kiri-e. Conte-nos um pouco sobre essa forma de arte, como voce trabalha com ela?
MARI KANEGAE: Eu dou aula de kiri-e e origami. O meu interesse pelo kiri-e surgiu quando fui ver uma exposição do artista Masayuki Miyata no Masp em 1975. Só em 1984, quando fui ao Japão estudar e pesquisar sobre origami, é que tive oportunidade de fazer um curso de kiri-ê. Assim como no origami, eu ainda me considero uma aprendiz. Ainda estou estudando. Esta técnica veio da China, e no Japão foi utilizada para fazer os moldes das estampas de kimono. Foi e ainda é utilizada em ilustrações de poesias e contos.

Luciana A.Miyashiro: O origami deveria ou não ser implantado no sistema educacional brasileiro?
MARI KANEGAE: Não adianta impor o origami na educação. É necessário primeiro mostrar a importância do origami para os professores através de vivências. Só assim eles vão poder passar aos alunos algo positivo.

Luciana A.Miyashiro: Você é coordenadora do G.E.O (Grupo de Estudos de Origami) em São Paulo e com ele também fazem exposições de origami. Gostaria de saber como surgiu esse grupo, e como surgiu a idéia das exposições?  Qual abrangência desse trabalho?
MARI KANEGAE: O grupo é formado na maioria por ex-alunos de origami da Aliança Cultural Brasil-Japão. Após concluírem os cursos básico, intermediário e avançado, algumas pessoas queriam continuar se encontrando  para estudar e divulgar a arte do origami. A princípio, fizemos alguns boletins com artigos, depoimentos e notícias sobre o tema. Datilografávamos os textos (não havia computador na época) e depois tirávamos cópias e distribuíamos aos interessados. Quando estava no Japão, visitei uma exposição da NOA (National Origami Association) sobre a história do Japão contada atraves de cenários e fiquei encantada com os detalhes. Fiquei imaginando em fazer algo parecido quando retornasse ao Brasil. Foi quando sugeri ao GEO de fazer uma exposição sobre a história da imigração japonesa no Brasil. Todos concordaram e partimos para a pesquisa. Visitamos o Museu da Imigração, Lemos o livro de Tomoo Handa, assistimos o filme da Tizuka novamente, resgatamos fotos antigas e juntando tudo, partimos para a criação das peças de origami. Todo mês cada membro contribuía com alguma quantia para comprarmos material. Esta exposição percorreu várias cidades no Brasil e finalmente foi exposta no Japão em Hamamatsu e na Embaixada Brasileira em Tóquio. Visitaram a exposição grandes nomes do origami, como Makoto Yamaguchi, Jun Maekawa, Isamu Asahi, Saburo Kase, Kunihiko Kasahara entre outros. Temos o livro de presença que mostra o que as pessoas sentiram ao ver a exposição. Muitos imigrantes se identificaram com os cenários, assim como os japoneses ficaram sensibilizados com a história que muitos não conheciam.

Luciana A.Miyashiro: Essa exposição foi levada para o Japão, contou com algum apoio?
MARI KANEGAE: Quando levamos a exposição ao Japão, conseguimos patrocínio de algumas empresas e pessoas para levar a exposição, mas não o suficiente para trazê-la de volta. Somos muito gratos a estas empresas e pessoas que nos apoiaram, pois recebemos muitas respostas negativas. A exposição sobre a História da Imigração Japonesa no Brasil foi doada ao Museu da Jica em Yokohama (Kaigai Iju Center). Houve uma tentativa de se trazer a exposição emprestada para os eventos da comemoração do centenário. O pessoal da JICA, inclusive contratou professoras de origami no Japão para consertar alguns cenários que ficaram deteriorados com o tempo. Era para uma empresária brasileira trazer a exposição, mas não deu certo, infelizmente.

Luciana A. Miyashiro: É lamentavel... mas outras exposições foram produzidas?
MARI KANEGAE: Fizemos 5 séculos de historia do Brasil em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil e  o último trabalho foi sobre o carnaval que levou cerca de 10 anos para ser concluida. Estas sem patrocínio. Apesar das dificuldades para produzir uma exposição que envolve, custos e tempo, o que vale para nós é o que as pessoas que visitam a exposição sentem e comentam. É uma comunicação não verbal. Envolve sentimento e sensibilidade.

Jorge Miyashiro: Na produção das exposições: o que vem primeiro o origami ou o tema? No caso da última exposição: vocês põe um homenzinho com terninho branco e chapéu "adaptando" um Mestressala ou criam origami de Mestressala?
MARI KANEGAE: Algumas coisas são adaptadas e outras temos que criar.

Luciana A.Miyashiro: Gostaria que voce desse sua visão pessoal do origami. De que forma ele influencia sua vida?
MARI KANEGAE:Para mim é uma filosofia de vida. Tudo que se aplica ao origami, pode ser levado ao nosso dia a dia. Paciência, perserverança, enfrentar desafios e o passo a passo. É um meio de comunicação, de expressão e valorização da vida.

Esta entrevista foi cedida para o Jornal Memai- Letras e Artes Japonesas - Edição 05
Curitiba - Verão 2010

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